12.2.04

Eles desceram com muita pressa até chão firme, onde ficava a forja. Chegando lá, Kili se ajoelhou ao lado do homem que parecia estar mais ferido, um vestido com cota de malha e espada na bainha. Cuidadosamente, ela retirou a armadura do homem, para constatar um fato que surpreendeu a todos os três: Seus ferimentos já estavam cicatrizados.

- Estranho - disse ela - é como se ele já tivesse recebido cuidados de um curandeiro - em seguida, verificou os outros dois, o homem de preto e o elfo, e percebeu que ambos estavam na mesma situação. Desacordados, com muito sangue nas roupas, mas todos os ferimentos já cicatrizados.
- Será que alguém já cuidou deles? - perguntou Clarissa, para em seguida lançar um olhar de reprovação para Kempla - Ei, não mexa em nada, hein?
- Claro, claro, não se preocupe - respondeu o kender, polidamente - Esse aí com cabelo comprido é um elfo? Você sabia que elfos hoje em dia são muito raros? Se eu não me engano os de Qualinesti estão desaparecendo, e os de Silvanesti estão presos, mas nunca entendi direito "como" eles estariam pres...
- Tá bom então, pode fuçar por aí, mas fique de bico fechado.

O contenda entre a aprendiz de armeiro e o kender foi interrompida por um fato estranho. A curandeira pegou um amuleto, fechou os olhos e concentrando-se, murmurou algumas palavras em tom muito baixo. Em seguida, uma suave luz branca emanou de suas mãos, e ao passar essa luz sobre os ferimentos recém-cicatrizados, eles pareceram simplesmente desaparecer, deixando os outrora feridos homens em perfeito estado.

- Curandeira, isso é Poder Divino? Eu pensava que os deuses haviam nos abandonado - perguntou uma assustada Clarissa.
- Infelizmente é verdade que os deuses nos abandonaram. Mas eu cresci e estudei num lugar onde foi descoberto que podemos invocar o Poder Divino que existe dentro de nós para a curar e fazer o bem.
- Ah sim, mas é claro - interrompeu o curioso e maravilhado Kempla - eu já ouvi falar desse lugar, é onde mora uma curandeira muita poderosa, dizem que ela foi uma heroína da Guerra da Lança!
- Isso é verdade, pequeno. Há muito tempo atrás, ela foi a maior sacerdotisa de Mishakal, a Deusa da Cura - Kili pareceu ficar muito sensível ao tocar nesse assunto, mas continuou com os cuidados médicos aos homens. Em seguida, pediu para Clarissa ferver um pouco de água misturada com um punhado de ervas, que ela sacou duma algibeira - Isso deve acordá-los rapidamente.

Um de cada vez, os três acordaram, reagindo ao cheiro forte da infusão. Em estado de choque, e murmurando coisas aparentemente sem sentido, foram acalmados pelo voz tranquila e suave de Kili, que voltando-se para o guerreiro, perguntou:

- Quais são seus nomes, meu bom homem?

Titubeante, mas em seguida percebendo que estava a salvo e num lugar seguro e civilizado, ele respondeu:

- Meu nome é Delkor Soreck. Eu venho do reino de Solamnia. Os meus companheiros são Arcallon de Pallanthas e Eladrim Hotsinger, de Silvanost. Estávamos viajando para a cidade de Solace, a negócios, quando fomos emboscados... - nesse momento, ele pareceu bastante perturbado, e parou de falar.
- Ei - disse Clarissa - diga o que aconteceu!
- Calma - disse abruptamente o homem vestido de preto, Arcallon - uma coisa de cada vez. Realmente sofremos uma emboscada, e foi realizada por orcs e... Draconianos.
- Draconianos? E havia por acaso algum dragão também? - exclamou Kempla, empolgado com a possibilidade de encontrar uma daquelas mágicas criaturas que inspiram tanto medo nos corações dos homens.

Então Eladrim, o elfo, se levantou com algum esforço para olhar o rosto de Kempla, à luz do fogo. Sem perder a postura altiva, virou-se para seus dois amigos e disse:

- Maldição, é um Kender...

11.2.04

Preocupada se alguém mais teria visto essas três pessoas estiradas no batente da porta da forja, Clarissa imediatamente puxou cada um para dentro. Em seguida, verificou que estavam todos desmaiados, e pelo sangue em suas roupas, bastante feridos. Ela decidiu então que seria melhor buscar ajuda, e após trancar a porta, subiu as escadas de cordas, com um destino, comum e obrigatório a todos que passassem por Solace.

A Taverna do Último Lar fora feita a partir de um único tronco do maior carvalho da cidade, dentro dele e em torno dele. Reconstruída algumas décadas após sua destruição durante a Guerra da Lança, era o ponto de encontro para todo tipo de gente: Aventureiros, negociantes, guerreiros, bardos e vários outros. Clarissa imaginou que a Curandeira de Solace estaria lá, tentando negociar alguns artigos com mercadores cansados e soldados feridos. Passou pelo portal e imponente, gritou:

- Curandeira! Onde está você, preciso de sua ajuda!

Todos no local voltaram sua atenção para a vigorosa jovem, e por um instante se calaram. Então de uma mesa a curandeira Kili se levantou, e aproximando-se da aprendiz de ferreiro perguntou:

- Há algum problema, minha jovem?
- Sim - ela respondeu - jogaram três homens feridos na porta da forja. Você poderia ir lá embaixo comigo ver a condição deles?
- Claro, vamos imediatamente... - e antes que pudesse dizer mais alguma coisa, ela foi interrompida por uma voz leve e educada, que disse:
- Boa noite, meu nome é Kempla Ligaleve, possa ajudá-las em alguma coisa?

Ambas sentiram seus corações gelarem, pois era um Kender. Da altura de uma criança com cerca de nove anos de idade, eles têm feições finas e são extremamente ágeis e ligeiros. Esse povo gosta de viver de forma alegre e suave, sem se preocupar com nada e ninguém, além de onde o destino os leve. E de fato, eles não se preocupam, pois os Kenders aparentemente desconhecem o medo, e são reconhecidos - e temidos - por isso. E, claro, eles gostam de falar. Muito. Esse kender, em especial, tinha um porte razoavelmente nobre, estava bem vestido e pelo menos sua abordagem foi educada.

- Nós não temos tempo para brincadeiras agora, Kender - esbravejou Clarissa, impaciente.
- Mas eu posso ajudar! Eu sou muito bom em muitas coisas, talvez eu possa até aprender alguma coisa!
- Clarissa - disse a curandeira - nós não temos tempo a perder, mas não adianta ficar discutindo com um kender. Deixo-o nos seguir, é inútil evitar isso.
- Está bem, está bem... Então vamos logo.

Feliz com a excitação de um novo desafio, Kempla Ligaleve seguiu as duas mulheres, agradecido pela oportunidade de novas aventuras que a decisão de viajar para Solace havia lhe proporcionado.

9.2.04

Clarissa acordou muito bem disposta para mais um dia de trabalho na forja. A vida em Solace havia se tornado árdua após as grandes guerras que quase devastaram a terra de Ansalon e destruiram completamente a bela cidade construída nas copas das árvores. A construção na qual ela trabalhava, a única que fica em solo firme na cidade, pertenceu um dia ao lendário anão Flint Fireforge, e hoje está nas mãos do dedicado Jork Righthand.

Ela prendeu seus longos e cacheados cabelos negros com uma fita azul, e vestindo roupas masculinas, coisa que causava uma certa irritação entre as outras senhoritas de Solace, saiu de casa e desceu as escadas de cordas, até chegar na forja onde o fogo já havia sido aceso por Jork. A bela jovem com apenas dezessete anos de idade nunca tinha visto sequer uma guerra, mas não conseguia para de sonhar em um dia conhecer o vasto e curioso mundo que a cercava.

Passou o dia inteiro martelando, escaldando e martelando novamente, com vigor capaz de impressionar até o mais veterano dos armeiros. Clarissa havia se tornado uma mulher muito forte por causa de sua profissão, e nunca se arrependeu em ter preferido cultivar seu potencial físico ao invés de estudar as artes e as letras. Ao cair da noite, seu trabalho não estava terminado, e Jork se despediu da jovem com um aviso:

- Não fique aqui até muito tarde. E mantenha a corrente na porta, Clarissa.
- Eu sei me cuidar, não sou mais uma criança, mestre!
- Eu só estava pensando na segurança das minhas ferramentas... Boa noite.

Rude à primeira vista, mas ela sempre viu seu mentor como um irmão mais velho que nunca teve. Seus pais morreram vítimas de uma emboscada nas proximidades de Solace quando ela era apenas uma criança de sete anos. Orfã, foi adotada pelo artesão e desde então aprendeu o ofício. Outra coisa que ela aprendeu foi a odiar a vida que era imposta à jovens senhoritas com as quais cresceu.

Clarissa simplesmente odiava a possibilidade de ter que se casar com um homem que não amava, e ter que morar numa casa fazendo coisas que odiava, como cozinhar, tecer e varrer. Realmente ela não havia nascido para os afazeres domésticos, e estava decidida a juntar dinheiro para viajar e conhecer o mundo, talvez achar um lugar onde houvesse tantos sonhadores como ela, e menos gente estúpida e contente em morar de forma segura e confortável nos galhos das árvores.

Seus olhos brilhavam quando ela concluiu sua obra-prima: Um machado de duas lâminas, forjado com carinho e precisão. Sua lâmina era mais afiada do que a de qualquer espada que já tinha feito, e o seu peso era capaz de derrubar um homem adulto apenas com um golpe de chapa. Certamente era um bom machado, não um daquele grosseiros artefatos vistos com frequência nas garras de orcs e goblins.

Foi então que ela ouviu um barulho, bem ao batente externo da porta da forja. Assustada, correu para a janela e chegou a ver um vulto fugindo no meio das árvores abaixo de Solace. Com o novo machado em mão, abriu cuidadosamente a porta, para ver uma cena sinistra: Jogados ao batente, havia três corpos: dois homens e um elfo. Olhou para as árvores e viu o vulto humanóide, parado, como se fitasse ela mesma ao longe, e por um instante pensou ter visto um leve brilho verde nos olhos da criatura. Foi então que ela ouviu um dos homens, o mais curioso dos três, com longos cabelos brancos e um manto negro, murmurar alguma coisa.

- Então não são três corpos - ela pensou alto - droga, isso tinha que acontecer justo comigo?

A Rainha Negra Takhisis comanda seu exército de dragões / Lorde Soth, o cavalheiro da morte, arquitetando planos obscuros.



Os Heróis da Lança lutam contra um dragão negro.